terça-feira, 19 de julho de 2016

Carta a Ana Maria

Esta carta representa mais do que um conjunto de palavras escritas em papel direcionadas a você. Representa ela uma coleção de importantes esclarecimentos que podem trazer luz a sua alma e paz ao seu coração. Pudera eu falar e lhe ensinar pessoalmente cada uma delas  e demonstrar através de claros argumentos a verdade. Não sendo possível, prefiro o fazer do modo como me dispõe, usando um papel, uma caneta e minhas idéias.

Por que a dádiva de testemunhar sobre um fato foi dado a um e não a outro? E como confirmamos que isto fora uma dádiva? Você deve considerar que na tentativa de fugir de uma realidade, de uma dimensão que não se queria estar, de um universo estranho, utilizamos aquilo que é inevitável que causará mais dano para que sejamos expulsos daquela realidade e passemos a tomar um novo rumo. E a confissão pode gerar isso. A confissão de um crime terrível sempre nos leva a entender que ela gera prisão, expulsão.

Mas não foi o que aconteceu. Onde se esperava expulsão, separação, destruição, ódio e morte, houve amor, insistência. Houve a consideração de que pessoas pequenas e inocentes dependentes de carinho e amor fossem atingidas por aquela situação. As vezes tomamos atitudes pensando que o efeito ocorrerá de um jeito, mas o contrário é o que acontece. E acontecendo o contrário o que podemos fazer?

A partir disso, inicia-se o dilema de que somos responsáveis pela ferida mais grave que causamos, e assim, sem pensar na ferida que causariamos em outro laço mais fraco, precisamos valorizar o laço mais quebrado da história, o laço traído, o laço humilhado. Será que você não consegue ver isso? Não pensa por um minuto em como o seu oposto se sente? No tamanho da humilhação? No tamanho da dor?

Então como pode querer se sentir cuidada? Como pode determinar que seja mais atendida do quem foi humilhado? Acha mesmo que seria abandonada assim sem motivo? Acha mesmo que te lançariam as traças e que não existe dor em não poder te socorrer, apoiar, suportar?

Diante do quadro que se formou, o ofensor, é forçado a se calar, forçado a abandonar, forçado a não se importar. Veja, ele é FORÇADO. Mas será que você sabe realmente o que vai na alma de quem você diz que te ofendeu? Será que realmente tudo está tão simples, tão lindo, tão claro como parece?

As fotos nunca representam a verdadeira realidade do coração. As fotos nunca representam a verdade que vai dentro de nós. Elas representam muito menos. São meras imagens. Você deveria pensar na solidão, na culpa, no sofrimento, no exercer de uma função que o ofensor não se vê mais capaz de exercer. Na tentativa que ele tem todos os dias de deixar tudo para trás e morrer, já que a sua vida consistia em fazer o que fazia com amor e dedicação, e integridade, do que adianta a vida agora que demonstrou um coração maligno, adúltero, sujo, e pecaminoso?

Já pensou na cobrança do patrão se seu ofensor? Na responsabilidade que seu ofensor tem, que muito maior do que a sua, envolve as contas que deve prestar? E como ele foi falho com aquele que o chamou? O sentimento no coração é o mesmo de Judas, e não se admire de que todos os dias a luta seja para evitar a vontade de morrer como Judas morreu.

É… você não deve ter considerado tudo isso. Possivelmente seu ofensor sofre muito mais do que você. Você tem a vida isenta de responsabilidades. Pode viver mais, pode fazer mais, pode criar novos alvos. Siga em frente! Pare de se importar com algo que nunca devia ter acontecido. Sua vida é especial, tem um propósito, deixe o sofrimento para quem infelizmente não pensou nas duras consequências de sua irresponsabilidade. Você merece ser feliz. Você merece aproveitar a vida, conhecer novos rumos, experimentar novas alegrias, viver os seus sonhos. Não deixe a amargura te impedir de viver.

Poderia falar muito mais coisas pessoalmente. Mas o tempo é as circunstâncias não permitem. Estou preso em relação a você. Não posso mover um olhar, um passo ou qualquer palavra em sua direção. Sinto não poder mais te ajudar como deveria. Sinto não poder mais te servir como “médico". Sinto não ter sido permitido te visitar, te apoiar, te fortalecer. Não se sinta abandonada, infelizmente fui forçado a isso.

Não posso falar mais do que isso. Se pudesse saiba que falaria.

Com carinho.