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terça-feira, 19 de julho de 2011

Fé e Sentimento

A realidade da fé subentende certo sentimentalismo. Nossa espiritualidade, ou melhor, nosso tato espiritual é o sentimento. Sentimento sobre a Bíblia (fé), sentimento sobre Deus (temor), sentimento sobre o mundo (compaixão). Se nossa caminhada com Cristo é espiritual, então é impossível não sentir.

O que precisamos cuidar é para que haja um equilíbrio na relação sentimento x fé. Não se pode reduzir a fé a puro sentimento (Schleiermarcher) e nem excluir totalmente o sentimento da fé (Racionalistas). É preciso que a fé e o sentimento sejam unidos numa realidade mútua e equilibrada como nos é evidenciado em Cristo.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Onde está Deus? - Meus questionamentos e suas respostas

"Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, Até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá." (Sl. 139.8-10)

Não há lugar tão alto em que Ele não possa estar e abismo tão profundo que suas mãos não possam alcançar. Deus cuida dos que O amam. Perdoa os que se arrependem, está perto dos que O invocam.

Pertunto em meu coração: Por que há tanto sofrimento? Por que há tanta desilução? Por que há tantas mortes? Onde está Deus nisso?

Suas palavras me confortam: "E buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes com todo o vosso coração" (Jr. 29.13).

Pergunto novamente: Será que se todos O buscássemos há muito já não teria nos salvado?

Suas palavras me respondem: "E se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra." (2 Cr. 7.14)

Todavia, temos em nosso tempo um realidade irrefutável, nem todos O querem buscar, nem todos acreditam que Possa ouvir. Uns anunciam sua morte, outros proclamam sua inexistência. Os chamados pelo seu nome, já não anunciam Sua Verdade, trocaram as coisas do alto, pelas coisas terrenas, trocaram as bençãos espirituais pelas financeiras.

Enquanto isso, como ato de nossa própria liberdade humana, muitos mantém-se afastamos dAquele nos propõe, Amor, Justiça e Paz.

Onde Ele está? Continua no mesmo lugar, está onde sempre esteve. Aguardando a restauração da aliança entre Deus e o Homem, restauração que propõe por intermédio de Jesus Cristo. Ele indicou o Caminho, ensinou sua Verdade e nos ofereceu a Vida.

Suas palavras me confirmam: "Disse-lhe Jesus: Eu sou o Caminho, e a Verdade e a Vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim." (Jo. 14.16)

Onde Ele está? Continua no mesmo lugar, está onde sempre esteve, afinal...

Não há lugar tão alto em que Ele não possa estar e abismo tão profundo que suas mãos não possam alcançar. Deus cuida dos que O amam. Perdoa os que se arrependem, está perto dos que O invocam.

Leonardo Felicissimo

terça-feira, 10 de maio de 2011

A Economia do Reino

EconomiaNinguém quer ser pobre, mas há de empobrecer para fazer-se participante das riquezas do reino de Deus. Nosso tempo grita em alto e bom som: Seja rico! Os amigos, as propagandas, os jornais, as igrejas nos dizem em corô: Seja rico! Busque ter tudo o que lhe pode fazer feliz, consuma, deseje ter mais do que pode comprar.

Nosso tempo é marcado pela capacidade particular de passear entre as classes sem necessariamente ter nascido em qualquer uma delas. Explico. Durante certo tempo das história, só era nobre quem nascia entre a nobreza. Com o passar do tempo, era nobre quem adquiria terras. Hoje, é nobre quem está no topo da escala de consumo!

Todos compomos uma nova classe, somos os chamados consumidores, queremos mais, desejamos as novidades. O mercado competitivo apresenta bimestralmente novos itens para consumo, e nós não podemos nos conformar com o mesmo, queremos mais, sempre mais.

É no querer mais que iniciamos nossa tentativa de construir uma ponte entre o que Jesus diz e o que nosso mercado diz. Na economia humana queremos subir mais, alcançar mais, ser mais, enriquecer mais do produto do mercado. Da tecnologia que nos é apresentada, das posses, dos carros, do que nos dá status, poder, prestígio.

Na economia de Deus queremos subir mais, alcançar mais, ser mais, enriquecer mais do que alimenta nosso espírito. Não queremos satisfazer o desejo de status do corpo, mas satisfazer uma necessidade do espírito. Digo status do corpo porque o que busco satisfazer me parece mais um insignificante momento de prazer. O prazer de ter sem precisar. Digo necessidade do espírito porque satisfaço uma necessidade do ser, que encontra somente Deus o que lhe completa, o que é parte de si.

É como um quebra-cabeça de muitas peças espalhadas pelo chão. Uma a uma colocadas em seu lugar, encaixada a outras peças, vão se conectando e dando forma a um belo quadro final. Deixe faltar uma peça, e o quadro se tornará imperfeito, incompleto, sem graça.

Agora, lemos no evangelho de Mateus, Jesus apresentando-nos o quadro da verdadeira felicidade: Felizes são aqueles que percebem que precisam de uma última peça para tornar-se um quadro completo, perfeito. Vejo-o me chamando a perceber em mim mesmo a falta de uma peça essencial, de uma engrenagem que faz funcionar o relógio, de um pixel que completa a imagem (desculpe, não contive minha NERDice). Vou explicar. Pixel é o menor elemento num dispositivo de exibição, ao qual é possivel atribuir-se uma cor. É do conjunto de milhares de pixels que nasce uma imagem de TV ou Monitor de computador por exemplo. Ou seja, um ponto minúsculo que não pode faltar para a criação de uma imagem perfeita e nítida.

Em outras palavras, podemos ouvir Jesus dizendo que felizes são os que precisam dEle. Felizes são os que veem nEle a peça que completa sua existência. O reino de Deus pertence à esses. É em sua necessidade que encontram riqueza. É no empobrecer do espírito que se encontra as riquezas do reino de Deus.

Obviamente que para um entendimento mais apurado do texto, seria interessante uma trabalho mais apurado de interpretação da expressão grega: makárioi hói ptochòi tô pnéumati” (Abençoados os pobres [em, no, ao, para] o espírito). Contudo, tratando-se de uma reflexão, ficamos com a tradução mais utilizada por alguns exegetas como Matthew Henry, Calvino e Daniel Wallace que compreenderam as palavras de Mateus como “pobres em espírito” como uma alusão ao reconhecimento da necessidade de Deus. O que a maioria de comentaristas divergem entre si, é a respeito da motivação desse esvaziamento. Enquanto alguns como Henry defendem uma idéia de santificação (humildes em espírito), Calvino interpreta que tratam-se de pobres em espírito, aqueles que passam por adversidades e se submetem a Deus como meio de encontrarem abrigo e proteção. 

Nos textos dos comentaristas temos a mesma idéia: Pobres em espírito, pessoas que precisam de Deus. Daniel Wallace concorda ao interpretar o texto grego como espiritualmente pobres. Uma compreensão real de que a riqueza do reino de Deus é Cristo, que preenche a alma com Sua Graça e virtude. Vale citar as belas palavras de Matthew Henry: "Essa pobreza de espírito é uma disposição de alma graciosa, pela qual somos esvaziados de nós mesmos, a fim de sermos cheios de Jesus Cristo"

Ser pobre de espírito é reconhecer Jesus Cristo como peça essencial no tabuleiro de quebra-cabeças da vida. Não é tê-lo como uma muleta pra viver melhor, é tê-lo uma realidade sem a qual a vida não tem o menor sentido. E não pensemos que não há benefícios em adotar este padrão de vida. O lucro deste investimento é: "porque deles é o reino dos céus". Que belo paradoxo! Os que se fazem empobrecidos são contemplados com um reino, o reino de Deus. Parafraseando Mateus: "Felizes são os espiritualmente pobres, porque terão um reino para si. O reino dos céus". A economia do reino de Deus não segue o fluxo de nossa economia humana, não saímos de um estado de riqueza para um estado de riqueza maior. É necessário que todos desçam a um estado de pobreza, pobreza de espírito. Em outras palavras, é no estado de pobreza de espírito que somos reconhecidos como ricos. 

Essa palavra pobreza não soa muito bem para nossos ouvidos capitalistas. Parece um texto "miserável". Mas quando o inserimos no contexto de Cristo ser pobre em espírito soa muito bem. Soa como cidadãos do reino de Deus. Nossa necessidade de Cristo, de Suas palavras, de Sua vida nos faz alcançar um status e prestígio grandioso como dignos do reino dos céus. Se nosso riqueza se resume a uma felicidade temporária, passaremos toda a nossa vida buscando consumir mais e mais aqui na terra. Contudo, se nossa riqueza se resume a uma felicidade eterna então desejemos mais e mais de Cristo, como pobres em espírito, ansiando por aqui que ele nos promete, vida em abundância: "[...] eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância." (Jo. 10.10b).

Sem dúvida não há maior lucro do que esse. E Esta é a economia do reino: Tonar-se pobre em espírito para apropriar-se da riqueza do reino dos céus: Vida em abundância.

terça-feira, 15 de março de 2011

A companhia de Deus

"Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam." (Salmo 23.4).

Não há quem goste de se sentir sozinho. Isso é evidente nos dias de hoje quando a energia é a maior fonte de companheirismo que se têm. Mentira? Não, acredito que não. Quando não se têm energia não se tem a "amiga" televisão, o "amigo" computador, ou qualquer outro tipo de amigo que dependa de energia elétrica. Não é nova a idéia que psicólogos e sociólogos nos apresentam de que as famílias não conseguem mais se comunicar, é cada um na sua rede social favorita, enclausurado na sua tecnologia favorita.

Não é somente pela energia que chegamos a compreensão de que o homem não consegue viver sozinho. Filósofos clássicos como Aristóteles apresentam o homem como um ser social. Antropólogos trabalham a idéia do homem como um ser relacional o qual depende de viver de relações com um outro/outros.

Todavia, a Bíblia nos ajuda a estender essa visão da necessidade social-natural do homem, apresentando-nos um homem que também está necessitado de uma relação social-espiritual. Uma necessidade de alcançar algo que sente existir e que ainda assim (alguns é claro) insiste em negar. Esse senso do divino (sensus divinitatis), como denominado por alguns teólogos protestantes, é um vazio, um sentimento de falta, um espaço "do tamanho de Cristo".

"Respondeu Jesus: Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada." (Jo. 14.23).

Assim como o viver solitariamente pode produzir em qualquer um sentimentos como tristeza, medo, solidão, existem consequências para uma vida onde não há essa relação com Deus. Há quem diga: "mas, eu sou feliz mesmo não crendo em Jesus Cristo ou Deus", "Eu sou feliz assim, não preciso de Deus". Penso que uma felicidade baseada no prazer, pode facilmente fracassar caso não hajam mais motivos que alimentem este prazer.

A companhia de Deus, proporciona um sentimento de coragem, de esperança e de confiança eternos e tais sentimentos são eternos porque estão atrelados à realidade de Deus, um ser Eterno. Mas como viver gozar dessa companhia se tratamos de realidades tão diferentes uma da outra? Somos naturais, estamos no tempo; Deus é espírito, está fora do tempo. O meio de experimentarmos essa companhia é a oração (Mt. 16.19; Tg. 5.13); a oração é o elo de relacionamento entre o homem e Deus, é o contato entre temporal e atemporal.

É por intermédio da oração que somos confirmados desta companhia, desta realidade de que o Senhor está conosco e sendo uma realidade, não pode ser negada; há uma promessa autêntica de companhia que nos foi feita por Jesus Cristo: "E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século" (Mt. 28.20). Jesus Cristo é Deus! Estas são palavras de Deus! Deus está nos garantindo que Sua companhia não é temporária, mas uma companhia autêntica pela oração, confirmada pela experiência.

Tememos, mas não há porque temer, choramos, mas não há porque chorar, nos preocupamos, mas não há por que nos preocupar. O medo assombra aqueles que sem oração caminham sozinhos. A coragem é a força daqueles que orando são acompanhados pelo Senhor Jesus. A companhia de Jesus é o que precisamos para prosseguirmos firmes no caminho, e a oração é a ferramenta que temos para mantermos esta relação de companhia e cuidado.

Quando nos sentirmos sozinhos, oremos e falemos com aquele que nos acompanha, pois, Ele é fiel e disse: "estou convosco todos os dias até à consumação do século". Chega de permanecer sozinho dando cordas ao sofrimento, sempre é momento de dobrar os joelhos, fechar os olhos e gozar a companhia de Deus.

Leonardo Felicissimo

terça-feira, 1 de março de 2011

Jesus, Buda e a Felicidade

Muito perturbado pelo sofrimento que viu pelo mundo, o príncipe de 29 anos Siddhartha Gautama (563 – 483 a.C.), mais tarde conhecido como Buda (“o iluminado”), deixou sua esposa e seus filhos para e partiu em uma busca pelo sentido da vida. O que ele enxergou foi que o mundo é passageiro – nada era permanente. Apesar disso, as pessoas desejavam essas coisas passageiras. Elas desejam a vida, saúde, posses e uns aos outros. Mas a vida, a saúde, as posses e as pessoas passam.

Os desejos humanos sempre iriam levar ao desapontamento. Isso, pensou, era a causa do sofrimento humano. Logo, ele concluiu que se pudesse matar o desejo, então poderia se manter ileso da influência do bem ou do mal, seu sofrimento acabaria e ele seria feliz. Ele estaria livre da dor e do ciclo sem fim da reincarnação. Isso era o Nirvana.

É irônico, então, que o motivo por trás da rigorosa busca de Buda para matar seus desejos estava um grande desejo humano: felicidade duradoura.

Sempre houve um grande e vazio buraco na busca de Buda pela felicidade duradoura: não há Deus. Buda não falou muito sobre a existência de Deus porque para ele, sinceramente, Deus era irrelevante na questão da felicidade do homem. Pelo contrário, a felicidade estava em se livrar do sofrimento causado pelos desejos e da reincarnação. A felicidade era o suave encerramento da existência individual – uma espécie de doce aniquilação.

Quão diferente das respostas de Buda são as respostas de Jesus. Quando um jovem rico e perturbado, não muito diferente do rico e perturbado jovem Gautama, procurou direcionamento de Jesus para alcançar a felicidade eternal, Jesus repondeu:

“‘Falta-lhe uma coisa’, disse ele. ‘Vá, venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me.’” (Marcos 10.21)

Note que Jesus de fato instruiu o homem a se desapegar de suas posses. Mas ele não falava de um desapego Budista. Ele falou de outra forma aqui:

“O Reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Certo homem, tendo-o encontrado, escondeu-o de novo e, então, cheio de alegria, foi, vendeu tudo o que tinha e comprou aquele campo.” (Mateus 13.44)

A mensagem é muito clara: deseje o tesouro! Deseje-o o suficiente para contar tudo o mais como perda para poder conquistá-lo (Filipenses 3.8). A diferença é que Buda quer ter menos desejo e ser completamente absorvido pelo cosmo impessoal. Jesus quer que desejemos profundamente e sejamos completamente arrebatados pela Pessoa em quem nós vivemos, movemos e existimos (Atos 17.28). É por isso que, na batalha contra os desejos pecaminosos, Jesus ensina muito mais que Buda. Ele sabe que nosso desejo por felicidade foi criado por Deus, assim como nosso desejo de viver. Eles não são ruins. Eis o que é ruim:

“‘Espantem-se diante disso, ó céus! Fiquem horrorizados e abismado’, diz o Senhor. ‘O meu povo cometeu dois crimes: eles me abandonaram, a mim, a fonte de água viva; e cavaram as suas próprias cisternas, cisternas rachadas que não retêm água.’” (Jeremias 2.12,13)

Fomos criados para sermos satisfeitos pelo único e eterno Deus. O mal é quando acreditamos que Deus não nos satisfaz e assim devemos buscar a felicidade em outra coisa. Isso é a essência do pecado. E o caminho para combater o pecado não é matar o desejo, mas abandonar nossos desejos fúteis por cisternas rachadas. Não há água nelas. Busque a Fonte! Jesus e Buda concordam que buscar a felicidade nas coisas passageiras é inútil. Mas eles nos levam a soluções opostas. Buda diz que a satisfação está em não desejar mais nada. Jesus diz que é desejar Deus. Em Deus nós conseguimos todas as coisas. Em nada, nós conseguimos… nada.

Autor: Jon Bloom

Tradução: Filipe Schulz | iPródigo

Artigo Original: http://www.iprodigo.com/traducoes/jesus-buda-e-a-felicidade.html

 

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O sentido tipológico do sétimo dia

Por João Calvino

A observância de um dia dentre cada sete representava aos judeus esta cessação perpétua de atividades, a qual, para que fosse cultivada com religiosidade maior, o Senhor a recomendou com seu próprio exemplo. Pois é de não somenos valia para aquecer o zelo do homem que saiba estar trilhando à imitação do Criador.


Se alguém procura algum sentido secreto no número sete, uma vez que na Escritura este é o número da perfeição, não sem causa foi ele escolhido para expressar perpetuidade. Ao que também confirma isto: que Moisés põe termo à descrição da sucessão de dias e noites com o dia em que narra haver o Senhor descansado de suas obras. Pode-se também apresentar outro significado provável do número, isto é, que o Senhor assim indicou que o sábado nunca haverá de ser absoluto até que tenha chegado o último dia. Pois aqui começamos nosso bem-aventurado descanso nele, descanso em que fazemos diariamente novos progressos. Mas, porque ainda incessante é a luta com a carne, não se haverá de consumar antes que se cumpra aquele vaticínio de Isaías [66.23], enquanto a lua nova for continuada por lua nova, sábado por sábado, até quando, na verdade, Deus vier a ser tudo em todas as coisas [1Co 15.28].

Portanto, pode parecer que, mediante o sétimo dia, o Senhor tenha delineado a seu povo a perfeição futura de seu sábado no Último Dia, a fim de que, pela incessante meditação do sábado, a esta perfeição aspirasse por toda a vida.

CRISTO, O PLENO CUMPRIMENTO DO SÁBADO

Se a alguém desagrada esta interpretação do número como sendo por demais sutil, nada impeço a que a tome em termos mais simples, a saber: que o Senhor estabeleceu um dia determinado em que o povo se exercitasse, sob a direção da lei, a meditar na incessabilidade do descanso espiritual; que Deus designou o sétimo dia, ou porque previa ser o mesmo suficiente para isso, ou para que, proposta uma imitação de seu exemplo, melhor estimulasse o povo, ou, na realidade, o exortasse a não atentar para o sábado com outro propósito senão que o conformasse a seu Criador.

Ora, pouco interessa que interpretação se adote, desde que subsista o mistério que principalmente se delineia: o referente ao perpétuo descanso de nossos labores. A contemplar isto, os Profetas reiteradamente revocavam os judeus, para que não pensassem haver-se desincumbido da obrigação do sábado com a simples cessação física do trabalho. Além das passagens já referidas, assim tens em Isaías [58.13, 14]: “Se apartares do sábado teu pé, para que não faças tua vontade em meu santo dia, e ao sábado chamares deleitoso e o dia santo do Senhor glorioso, e o glorificares, não seguindo teus caminhos e não fazendo tua vontade, de sorte que fales tua palavra, então te deleitarás no Senhor” etc.

Mas, não há dúvida de que pela vinda do Senhor Jesus Cristo o que era aqui cerimonial foi abolido. Pois ele é a verdade, por cuja presença se desvanecem todas as figuras; o corpo, a cuja visão são deixadas para trás as sombras. Ele é, digo-o, o verdadeiro cumprimento do sábado. Com ele, sepultados através do batismo, fomos enxertados na participação de sua morte, para que, participantes de sua ressurreição, andemos em novidade de vida [Rm 6.4]. Por isso, escreve o Apóstolo em outro lugar que o sábado tem sido uma sombra da realidade futura, e que o corpo, isto é, a sólida substância da verdade, que bem explicou naquela passagem, está em Cristo [Cl 2.17]. Esta não consiste em apenas um dia, mas em todo o curso de nossa vida, até que, inteiramente mortos para nós mesmos, nos enchamos da vida de Deus. Portanto, que esteja longe dos cristãos a observância supersticiosa de dias.